Di Resta: um talento nada sutil

Rafael Ligeiro @rljornalista

Paul di Resta é, até o momento, o grande destaque entre os quatro pilotos estreantes da Fórmula-1 em 2011. Com um bom rendimento nas três primeiras provas do ano, o escocês está em alta na comunidade do automobilismo. Murray Walker quer vê-lo na Mercedes a partir da próxima temporada. Dario Franchitti classifica Paul como “tão bom quanto Lewis Hamilton e Sebastian Vettel”. Já Norbert Haug disse que o desempenho do britânico na recém-nascida temporada é sensacional.

Tudo bem… Tudo bem! É verdade que há quem possa acreditar que esse trio esteja a puxar a brasa à sua sardinha. Paul é tão britânico quanto Murray e tão escocês quanto Franchitti. Já Haug é presidente da divisão esportiva da Mercedes-Benz, marca que Resta defendeu entre 2007 e 2010 no Campeonato Alemão de Carros de Turismo (o Deutsche Tourenwagen Masters, ou simplesmente DTM). No entanto, creio na sinceridade desse trio. Afinal, de fato o rendimento do escocês agrada. Acompanhar seus desempenhos, por sinal, será um dos bons atrativos da Fórmula-1 ao longo do atual campeonato.

À primeira vista, pode parecer estranho elogiar a um sujeito que ocupa somente o 14º posto na classificação do Mundial de Pilotos, com dois pontos. Contudo, vale ressaltar que o escocês não tem carro para brigar por vitórias; pódios, sequer. Apesar do motor Mercedes puxar bem e o VJM04 não ser um chassi sofrível, a Force India pode almejar, no máximo, o sexto lugar no Mundial de Construtores desse ano. Logo, o comparativo com o companheiro de equipe é a maneira mais sensata para julgar o rendimento do diletante.

Paul di Resta já foi companheiro de Vettel na Fórmula-3

Paul superou Adrian nos três treinos oficiais da temporada 2011. Em Melbourne e Sepang, o britânico largou em 14º lugar – Sutil em 16º e 17º, respectivamente. Na etapa passada, em Xangai, o alemão obteve o 11º melhor tempo. Já Resta fez as honras do time indiano e conseguiu uma vaga no Q3. Garantiu o oitavo tempo.

Em corridas, novo triunfo britânico. Na Malásia, Paul somou um ponto ao receber a quadriculada em décimo, imediatamente à frente de Adrian. Na China, di Resta ficou em 11º; o alemão em 15º. A única derrota do escocês aconteceu justamente na primeira corrida de 2011, na Austrália. Foi décimo colocado. Sutil, o nono.

Superar companheiros de equipe oriundos da Alemanha, aliás, está longe de ser novidade a Paul. Em 2006, pelo europeu da Fórmula-3, seu parceiro de time na francesa ASM era um “tal” de Sebastian Vettel. Ambos brigaram pelo título daquele ano. O caneco ficou com Resta; Vettel, com o vice.

Outra constatação curiosa é a que Paul di Resta não passou pela GP2, aclamada principal categoria de acesso à Fórmula-1. Por sinal, sequer acelerou em uma categoria de Fórmula nos últimos quatro anos. Entre 2007 e 2010, o britânico atuou com grande destaque no DTM. Após o vice em 2008 e o terceiro posto em 2009, Paul faturou o título no ano passado, após disputa acirrada com os companheiros de HWA Team-Mercedes, o britânico Gary Paffett e o canadense Bruno Spengler.

Esse caminho, atualmente um bocado incomum, lembra os percorridos por Michael Schumacher e Giancarlo Fisichella. Fisichella saiu de um Alfa Romeo 155 do Campeonato Internacional de Carros de Turismo (ITCC) direto para um Minardi de Fórmula-1, em 1996. Cinco anos antes, Schumacher disputava seu primeiro GP de F-1, em Spa-Francorchamps, após defender a própria Mercedes no DTM e no Mundial de Carros Esportivos.

Tive a felicidade de conversar recentemente sobre Paul di Resta com o amigo Augusto Farfus Júnior. O ex-piloto do Mundial de Carros de Turismo (WTCC), que atualmente defende a BMW em provas de Endurance, também ressaltou o bom trabalho do britânico. Falamos ainda sobre essa falta da GP2 na carreira do novo queridinho da Fórmula-1. E o Augusto garantiu algo bastante interessante: o fato de Resta ter defendido uma marca como a Mercedes no DTM é algo que ajuda o escocês a encarar melhor a pressão existente na Fórmula-1.

“Muitas vezes um piloto não se adapta à Fórmula-1 não pela velocidade ou pelas reações do carro, mas sim porque não está acostumado com a rotina e a pressão que existem quando se defende uma grande marca”, afirmou Farfus. “Levando em consideração o envolvimento das montadoras, a DTM e provavelmente a LMP1 são os carros mais próximos da Fórmula-1. A GP2 é a categoria que em termos de velocidade pura se aproxima muito a F-1, mas o piloto acaba não tendo o dia-a-dia e as responsabilidades de trabalhar para uma casa”.

Sinceramente, não tenho dúvidas de que Paul di Resta é um piloto com enorme potencial. Além de veloz, tem uma tocada segura e constante. Guia como um veterano na Fórmula-1. Não ousaria afirmar que se trata de um futuro campeão da categoria, pois vencer na F-1 não se restringe a talento. Mas, se tiver suas virtudes bem lapidadas e chegar a uma equipe grande, esse escocês de West Lothian dará muito trabalho à concorrência.

Será um adversário nada sutil.