Tempos modernos

Rafael Ligeiro @rljornalista

Certamente o título dessa coluna não soa como mistério, especialmente aos aficionados por cinema: trata-se de uma modesta referência ao popular filme criado por Charlie Chaplin, em 1936. Além da primeira produção cinematográfica em que podemos acompanhar um tostão da voz do genial Carlitos, Tempos Moderno é uma sátira ao processo de industrialização, às máquinas que exigiam movimentos sucessivos e sincronizados dos trabalhadores. Mas, afinal, o que isso tem a ver com automobilismo?

Algumas décadas atrás, a tecnologia deixou de ser mera coadjuvante no desenvolvimento de carros de categorias como a Fórmula-1. E, desde o filme de Chaplin, ocorreram inúmeras alterações no esporte a motor mundial.

Túnel de vento - Schumacher - Ferrari

À medida que os milésimos de segundo se tornavam cada vez mais decisivos na constituição de um grid e nas disputas de um GP, a busca incessante por novas tecnologias invadiu de modo mais incisivo a principal categoria de automobilismo, a F-1. Houve o advento de uma série de técnicas que buscavam a evolução dos carros de competição. Um bom exemplo disso é o túnel de vento, aparelho que testa as reações de um monoposto sob diversas condições aerodinâmicas. Atualmente quem os vê, gigantescos e orçados em dezenas de milhões de dólares, talvez mal saiba como algumas equipes buscavam melhorias no rendimento de seus bólidos, nos anos 60.

Nessa época, mais precisamente em 1968, o piloto e construtor Jack Brabham usava um conceito bastante interessante para verificar reações aerodinâmicas dos carros. Porém, bastante “artesanal”. Durante testes no circuito de Silverstone, Sir Jack contratou um fotógrafo e colou mechas de lã em seu Brabham-Cosworth. A partir de fotos do carro em ação, o australiano e o projetista Ron Tauranac estudaram, por meio da movimentação das mechas de lã, quais eram as reações do equipamento sob diversas circunstâncias.

Já nos anos 70, a Lotus foi uma das primeiras equipes a usar a tecnologia do túnel de vento para o desenvolvimento de seus monopostos. Até então, o aparato era usado apenas na indústria aeronáutica. E o resultado não poderia ser melhor ao time inglês. A equipe de Colin Chapman aprimorou-se nos estudos do “efeito-solo” nos carros, empregou os resultados no modelo 78, e faturou, com sobras, os Mundiais de Pilotos e de Construtores de 1978.

Projetos à parte, a Fórmula-1 assistiu a um que poderia causar completa revolução na categoria, em 1997. A Fiat contratou o projetista italiano Vito Ianiello para desenvolver um estudo que buscava alternativas aerodinâmicas à exposição das rodas do monoposto. Após algum tempo, Ianiello desenhou um Ferrari com proteções laterais, semelhante ao chassi de protótipos que disputam as 24 Horas de Le Mans.

Os conceitos, que ora pareciam dignos de um “veículo lunar”, não impressionaram muito e o que poderia virar realidade foi parar na gaveta.

Logo surgem algumas perguntas: Como serão os carros de Fórmula-1 daqui algumas décadas? Como serão os regulamentos técnicos? Até onde o homem pode explorar a tecnologia? Bem, essas são perguntas que nem o bom Carlitos saberia responder…

Carro de Fórmula 1 completamente desmontado